Ensino de Sociologia

Licenciatura em Ciências Sociais e Sociologia no Ensino Médio
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Archive for the ‘Experiência’

Estágio de sociologia num centro de educação infantil

janeiro 16, 2017 By: polart Category: Experiência

de Juliana Aparecida Sousa Carvalho e Gabriel de Matos Garcia

Quando foi tomada a decisão de realizar o estágio II em um Centro de Educação Infantil conveniado com a prefeitura, e que atende  crianças muito pequenas, a princípio nos surgiu a dúvida de como poderíamos unir esse centro educacional, aos temas da Sociologia. No início foi realmente um desafio, porém, ao longo da realização do estágio, com o decorrer das conversas com as profissionais, das nossas próprias descobertas e de leituras acerca do processo de formação na Pedagogia, foi possível pensar em diversas questões, sobre as quais pudemos refletir e colocar em prática a intervenção.

O primeiro gancho para a nosso projeto, foi descobrir que a maioria das educadoras com as quais tivemos contato no CEI, teve pelo menos um semestre de Sociologia durante a faculdade de pedagogia, tendo estudado autores clássicos das Ciências Sociais, bem como autores da Sociologia da Educação, entre outros. A partir daí, quisemos saber mais como foi essa experiência delas com a Sociologia,  ainda que em muitos casos ela tenha acontecido de forma superficial. Descobrimos que para muitas delas, foi de grande auxilio para  entender e saber lidar melhor com algumas situações com as quais elas têm de lidar no trabalho com as crianças, e também com a comunidade e com os companheiros de trabalho, além disso, a nossa presença lá, também despertou o interesse para outras questões,  que foram levantadas por elas, e que também puderam nos ajudar na elaboração de um plano de intervenção que fosse de troca mútua, e  que pudesse ser algo que desse resultado tanto para nós, como principalmente para elas. Após essas discussões, passamos a pensar e  pesquisar sobre materiais que pudessem nos auxiliar no projeto, e que também nos auxiliassem nesse campo novo que seria discutir a  Sociologia na Educação Infantil.

Dessa forma, a nossa intervenção se dedicou a além de compreender e discutir com as educadoras suas experiências com a Sociologia, também levantar e promover o debate acerca de algumas questões sociais que acreditamos ser tangentes ao trabalho realizado na  educação infantil, sendo eles: a influência da mídia no imaginário das crianças e ações para modificar isso; a importância de discutir e  acolher as novas formas familiares em construção; as condições de trabalho na educação infantil; a ausência de docentes masculinos  nesse meio; e a necessidade de discutir a relação entre racismo ecrianças negras. Dessas questões chave, desenvolvemos uma troca muito rica, na qual pudemos aprender muito com as educadoras, ao mesmo passo que pudemos também fazê-las refletir sobre casos de extrema importância, e que precisam ser analisados também pela perspectiva da Educação Infantil.

Assim, o principal resultado que encontramos, e que nos deixou muito satisfeitos nessa experiência de propor uma interação entre a  Sociologia e um centro de Educação Infantil, foi a abertura de outro espaço de discussão para as Ciências Sociais, que a princípio foi  encarado com certo receio por nós, mas que no fim, se mostrou um campo rico, e possibilitador de diversas situações. É um espaço  diferente dos tradicionais, como as universidades e escolas estaduais, e no qual pudemos pensar em diversas questões importantes. Além  disso, é importante que possamos cada vez mais propiciar esses espaços de discussão, frente aos ataques sempre presentes á Sociologia.

 

Estágio no Arouche

janeiro 15, 2017 By: polart Category: Experiência

de Lidiane Domingues

O Largo do Arouche é um lugar cheio de afetos que também são meus. Quando cheguei ao campo de estágio foi como voltar a um canto do quintal de casa, mas dessa vez não estava a passeio e meu olhar foi logo dirigido para sutilezas que não tinha observado antes. A organização na qual fiz o estágio tem propostas interessantes para formação de jovens e no projeto em questão ´´Viva melhor sabendo jovem“ a estratégia principal é a de ´´educação entre pares“ ou ainda, a escolha de atores (que trabalham recepcionando, informando e realizando os testes) competentes em ter empatia com a população que atende: a equipe é formada de jovens ativos na defesa dos direitos lgbt e trans.

O Arouche é conhecidamente um point lgbt, então não pudemos evitar uma pesquisa histórica do território, porque o que presenciávamos nas horas de campo nos parecia familiar demais e esta constatação me levou a perguntar: quando e como esse lugar foi diferente? Como essa praça e esses bares passaram a ser mais ou menos assim?

Resumidamente, a história começa na segunda metade do século passado, pouco antes do golpe militar. Partes do centro da cidade começaram a ser percorridas pela população lgbt, a que ali vivia, a que vinha da periferia e do interior do estado, a procura, quem sabe, de alguma sociabilidade entre pares, outros que compartilhassem seus desejos e modo de vida. Os banheirões da Sé e da República foram espaços eróticos antes que tivesse metrô, a praça da república, os cinemas do centro, a esquina da Ipiranga com a São João, o Arouche, a praça Dom José Gaspar, todos esses quarteirões, estendidos à Augusta posteriormente, fazem o círculo percorrido pela população lgbt desde os anos 1950.

É claro que podemos encontrar locais de sociabilidade lgbt no interior ou na periferia, mas o que nos pareceu na pesquisa é que inicialmente as pessoas procuravam esses espaços porque neles era possível e permitido, ou auto-permitido, comportamentos  que não poderiam ocorrer, sem uma censura violenta, em outros lugares da sociedade. Os banheiros ou cinemões não foram construídos para o tipo de sociabilidade que acabou por se estabelecer neles, foram as pessoas que frequentavam esses espaços que os instituíram de uma liberdade específica, mesmo que dentro de bolhas.

Veio a ditadura e logo depois o surto do HIV. Houve uma higienização severa do território lgbt no centro, o Arouche esvaziou-se por quase vinte anos, a polícia era violenta na rua e não relutava em invadir bares e boates, os últimos refúgios para quem o espaço público estava vetado. As boates Medieval e HS ficaram bem famosas e junto de outras foram o berço do movimento político cultural  que organizou estética e institucionalmente a população lgbt. O surto do HIV obrigou o Estado a reconhecer, em algum aspecto, que a questão era de sáude pública e que havia uma população específica afetada. No entanto, essa população tinha pautas para além da saúde, que se dirigiam, de modo geral, aos direitos humanos. Nos anos 1990 já havia organizações, associações, coletivos, grupos de teatro lgbt, etc. ativos politicamente; as contingências político sociais obrigaram as pessoas a se organizar e funcionou.

Essa história, imensa em várias dimensões, chama atenção em um aspecto determinante: trata-se duma população violentada pelo Estado, pela esquerda e suas organizações tradicionais, pela igreja, pela moral, pela família, por todo lado.

A prática da educação, da formação, do acolhimento entre pares, entre os seus, é fundamental para se criar espaços de segurança e dignidade para pessoas secularmente violentadas. Não pude deixar de pensar a prática disso na educação formal, na escola. A necessidade de um outro tipo de abordagem, de relação entre estudante e professor, estudante e escola enquanto instituição, mostra-se nas demandas levantadas pelo movimento secundarista e em momentos da mobilização dos professores. Se os papéis tradicionais são difíceis de mudar, a insuficiência da estrutura e da ideologia que sustentaram a educação formal até agora forçam os atores da escola a dar respostas possíveis à crise institucional.

Os ataques do atual desgoverno, as décadas de precarização da educação pública administrada pelo Estado de São Paulo, apontam do nosso lado a questão: que escola queremos? Não se trata apenas da merenda, ou da quantidade de salas de aula, mas da qualidade da nossa educação. A demanda de fundo passa a ser por uma formação humana para a vida, que implica em mais horinzontalidade no processo de produção de conhecimento e que implica também, em última instância, na autonomia do estudante enquanto ser humano curioso, com anseios e pontos de vistas próprios, carregados de identidade que se formaram, maior parte das vezes, fora da escola.

A noção da escola enquanto parte de um território específico pode nos ajudar a pensá-la como espaço de sociabilidade onde pessoas que tem uma realidade social comum ou semelhante interagem, vivem parte de sua vida e que precisam criar noções de participação, de fazer parte, de coletivo, de identidade, por vezes. Acredito que quanto mais a escola estiver aberta ao entorno, à cultura local, à comunidade e à cidade novas possibilidades de convivência podem surgir. Claro está que essa abertura não é o comum e a necessidade de ocupar a escola demonstra isso, uma ruptura de fora para dentro, mesmo sendo os estudantes os protagonistas dessa história. Em outras palavras, me parece que a educação formal precisa também começar a dar conta da educação e da cultura popular, da tradição oral e da historicização do território e dos jovens que vivenciam a escola e o território. Se a diferença de conhecimento entre professores e estudantes é inevitável, é preciso transformar essa relação hierárquica em uma relação de interesse mútuo, mesmo que fique ao professor a tarefa de orientar, instigar e ensinar, o ponto de vista da abordagem deve estar ao lado dos estudantes e da particularidade das comunidades onde vivem.

Conhecer o modo de vida de quem se pretende educar pode ser uma aproximação fértil em termos de compreensão, empatia e eficiência no processo de produção de conhecimento. Acabei por perceber que educação entre pares não precisa ocorrer apenas entre pessoas de identidade semelhante, isto de fato é facilitador, mas a coisa se dá mesmo na abertura cognitiva e simbólica de quem é educador para o mundo de quem se pretende ensinar.

Uma experiência de estágio em um movimento social

janeiro 15, 2017 By: polart Category: Experiência

Uma experiência de estágio em um movimento social: um exercício profundo de escuta do eu e do outro

de Michelli de Souza Ribeiro

Durante este semestre, tive a experiência única de cumprir as minhas horas de estágio supervisionado junto a um movimento social. O que me permitiu participar de uma série de atividades, que me possibilitaram uma imersão em um processo de escuta de diferentes vozes que denunciavam as inúmeras violações de diretos humanos a que estão, cotidianamente, submetidas.

Diante de todas estas falas, relatos e depoimentos, a impassibilidade era impossível. Mesmo sabendo que se tratava de um campo de estágio, e que ali eu deveria me colocar como uma estudante de licenciatura do curso de Ciências Sociais, não havia como não me deixar afetar diante de tanto sofrimento.     

Neste sentido, é importante salientar que todo o meu processo de iniciação científica está ligado a conceitos antropológicos, assim, quando eu vou para o campo de estágio eu não consigo me dissociar disso; as minhas impressões sobre o que eu ouvi, vi e vivi em campo, é perpassada por esses conteúdos e também pelos meus conteúdos pessoais.

Não obstante, conforme argumenta Favret-Saada (2005: 157), a observação participante nos coloca diante de uma bifurcação, uma vez que, a efervescência produzida pelos discursos emocionados e, em alguma medida, exaltados dos (as) ativistas, é perceptível e afeta a todos (as) os (as) presentes nos eventos. Assim, se nos impôs, a seguinte questão: “[…] se eu ‘participasse’ [dessa efervescência] o trabalho de campo se tornaria uma aventura pessoal, isto é, o contrário de um trabalho; mas se eu tentasse só “observar”, manter-me à distância, não acharia nada para observar […].”

Ainda amparada nas asserções de Favret-Saada (2005: 159), argumento que, sim, aceitei me deixar afetar pelas emoções presentes no discurso dos (as) integrantes dos movimentos sociais a que tive acesso durante a minha inserção no campo de estágio, pois, segundo a autora, o deixar-se afetar “[…] abre uma comunicação específica com os […] [movimentos sociais]: uma comunicação sempre involuntária e desprovida de intencionalidade, e que pode ser verbal ou não.”

O aspecto “verbal” desta comunicação que se estabeleceu entre mim e meus interlocutores, me foi perceptível em momentos em que de alguma maneira, eu me via instada a corresponder aos afetos produzidos por aqueles discursos e, de fato, a minha fala estava impregnada por toda aquela efervescência. E aqui cabe pontuar, que há uma distinção entre o parecer, que implica intencionalidade, e o realmente ser afetada pelo engajamento daquelas pessoas; já o aspecto não verbal pode ser traduzido como um processo de apreensão da intensidade das afecções a que os meus interlocutores estão submetidos, note que não se trata de apreender o afeto do outro, pois isso não me é dado, a mim é dado apenas a possibilidade de um deslocamento de perspectiva, a partir do qual a minha percepção consegue ir além da representação do afeto do outro.

Por fim destaco aqui, um outro aspecto importante dessa experiência. Todo esse processo de reflexão no qual foi possível perceber as impressões produzidas durante a minha imersão neste campo de estágio, ocorreu em um momento posterior a ele, ou seja, a compreensão da experiência se deu fora do campo, em um exercício profundo de escuta do eu e do outro.

Referências Bibliográficas:

FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Tradução: Paula Siqueira; Revisão: Tânia Stolze Lima. Cadernos de campo, Brasil, n. 13: 155-161, 2005.