Ensino de Sociologia

Licenciatura em Ciências Sociais e Sociologia no Ensino Médio
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Estágio no Arouche

Janeiro 15, 2017 By: polart Category: Experiência

de Lidiane Domingues

O Largo do Arouche é um lugar cheio de afetos que também são meus. Quando cheguei ao campo de estágio foi como voltar a um canto do quintal de casa, mas dessa vez não estava a passeio e meu olhar foi logo dirigido para sutilezas que não tinha observado antes. A organização na qual fiz o estágio tem propostas interessantes para formação de jovens e no projeto em questão ´´Viva melhor sabendo jovem“ a estratégia principal é a de ´´educação entre pares“ ou ainda, a escolha de atores (que trabalham recepcionando, informando e realizando os testes) competentes em ter empatia com a população que atende: a equipe é formada de jovens ativos na defesa dos direitos lgbt e trans.

O Arouche é conhecidamente um point lgbt, então não pudemos evitar uma pesquisa histórica do território, porque o que presenciávamos nas horas de campo nos parecia familiar demais e esta constatação me levou a perguntar: quando e como esse lugar foi diferente? Como essa praça e esses bares passaram a ser mais ou menos assim?

Resumidamente, a história começa na segunda metade do século passado, pouco antes do golpe militar. Partes do centro da cidade começaram a ser percorridas pela população lgbt, a que ali vivia, a que vinha da periferia e do interior do estado, a procura, quem sabe, de alguma sociabilidade entre pares, outros que compartilhassem seus desejos e modo de vida. Os banheirões da Sé e da República foram espaços eróticos antes que tivesse metrô, a praça da república, os cinemas do centro, a esquina da Ipiranga com a São João, o Arouche, a praça Dom José Gaspar, todos esses quarteirões, estendidos à Augusta posteriormente, fazem o círculo percorrido pela população lgbt desde os anos 1950.

É claro que podemos encontrar locais de sociabilidade lgbt no interior ou na periferia, mas o que nos pareceu na pesquisa é que inicialmente as pessoas procuravam esses espaços porque neles era possível e permitido, ou auto-permitido, comportamentos  que não poderiam ocorrer, sem uma censura violenta, em outros lugares da sociedade. Os banheiros ou cinemões não foram construídos para o tipo de sociabilidade que acabou por se estabelecer neles, foram as pessoas que frequentavam esses espaços que os instituíram de uma liberdade específica, mesmo que dentro de bolhas.

Veio a ditadura e logo depois o surto do HIV. Houve uma higienização severa do território lgbt no centro, o Arouche esvaziou-se por quase vinte anos, a polícia era violenta na rua e não relutava em invadir bares e boates, os últimos refúgios para quem o espaço público estava vetado. As boates Medieval e HS ficaram bem famosas e junto de outras foram o berço do movimento político cultural  que organizou estética e institucionalmente a população lgbt. O surto do HIV obrigou o Estado a reconhecer, em algum aspecto, que a questão era de sáude pública e que havia uma população específica afetada. No entanto, essa população tinha pautas para além da saúde, que se dirigiam, de modo geral, aos direitos humanos. Nos anos 1990 já havia organizações, associações, coletivos, grupos de teatro lgbt, etc. ativos politicamente; as contingências político sociais obrigaram as pessoas a se organizar e funcionou.

Essa história, imensa em várias dimensões, chama atenção em um aspecto determinante: trata-se duma população violentada pelo Estado, pela esquerda e suas organizações tradicionais, pela igreja, pela moral, pela família, por todo lado.

A prática da educação, da formação, do acolhimento entre pares, entre os seus, é fundamental para se criar espaços de segurança e dignidade para pessoas secularmente violentadas. Não pude deixar de pensar a prática disso na educação formal, na escola. A necessidade de um outro tipo de abordagem, de relação entre estudante e professor, estudante e escola enquanto instituição, mostra-se nas demandas levantadas pelo movimento secundarista e em momentos da mobilização dos professores. Se os papéis tradicionais são difíceis de mudar, a insuficiência da estrutura e da ideologia que sustentaram a educação formal até agora forçam os atores da escola a dar respostas possíveis à crise institucional.

Os ataques do atual desgoverno, as décadas de precarização da educação pública administrada pelo Estado de São Paulo, apontam do nosso lado a questão: que escola queremos? Não se trata apenas da merenda, ou da quantidade de salas de aula, mas da qualidade da nossa educação. A demanda de fundo passa a ser por uma formação humana para a vida, que implica em mais horinzontalidade no processo de produção de conhecimento e que implica também, em última instância, na autonomia do estudante enquanto ser humano curioso, com anseios e pontos de vistas próprios, carregados de identidade que se formaram, maior parte das vezes, fora da escola.

A noção da escola enquanto parte de um território específico pode nos ajudar a pensá-la como espaço de sociabilidade onde pessoas que tem uma realidade social comum ou semelhante interagem, vivem parte de sua vida e que precisam criar noções de participação, de fazer parte, de coletivo, de identidade, por vezes. Acredito que quanto mais a escola estiver aberta ao entorno, à cultura local, à comunidade e à cidade novas possibilidades de convivência podem surgir. Claro está que essa abertura não é o comum e a necessidade de ocupar a escola demonstra isso, uma ruptura de fora para dentro, mesmo sendo os estudantes os protagonistas dessa história. Em outras palavras, me parece que a educação formal precisa também começar a dar conta da educação e da cultura popular, da tradição oral e da historicização do território e dos jovens que vivenciam a escola e o território. Se a diferença de conhecimento entre professores e estudantes é inevitável, é preciso transformar essa relação hierárquica em uma relação de interesse mútuo, mesmo que fique ao professor a tarefa de orientar, instigar e ensinar, o ponto de vista da abordagem deve estar ao lado dos estudantes e da particularidade das comunidades onde vivem.

Conhecer o modo de vida de quem se pretende educar pode ser uma aproximação fértil em termos de compreensão, empatia e eficiência no processo de produção de conhecimento. Acabei por perceber que educação entre pares não precisa ocorrer apenas entre pessoas de identidade semelhante, isto de fato é facilitador, mas a coisa se dá mesmo na abertura cognitiva e simbólica de quem é educador para o mundo de quem se pretende ensinar.

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