Ensino de Sociologia

Licenciatura em Ciências Sociais e Sociologia no Ensino Médio
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Uma experiência de estágio em um movimento social

janeiro 15, 2017 By: polart Category: Experiência

Uma experiência de estágio em um movimento social: um exercício profundo de escuta do eu e do outro

de Michelli de Souza Ribeiro

Durante este semestre, tive a experiência única de cumprir as minhas horas de estágio supervisionado junto a um movimento social. O que me permitiu participar de uma série de atividades, que me possibilitaram uma imersão em um processo de escuta de diferentes vozes que denunciavam as inúmeras violações de diretos humanos a que estão, cotidianamente, submetidas.

Diante de todas estas falas, relatos e depoimentos, a impassibilidade era impossível. Mesmo sabendo que se tratava de um campo de estágio, e que ali eu deveria me colocar como uma estudante de licenciatura do curso de Ciências Sociais, não havia como não me deixar afetar diante de tanto sofrimento.     

Neste sentido, é importante salientar que todo o meu processo de iniciação científica está ligado a conceitos antropológicos, assim, quando eu vou para o campo de estágio eu não consigo me dissociar disso; as minhas impressões sobre o que eu ouvi, vi e vivi em campo, é perpassada por esses conteúdos e também pelos meus conteúdos pessoais.

Não obstante, conforme argumenta Favret-Saada (2005: 157), a observação participante nos coloca diante de uma bifurcação, uma vez que, a efervescência produzida pelos discursos emocionados e, em alguma medida, exaltados dos (as) ativistas, é perceptível e afeta a todos (as) os (as) presentes nos eventos. Assim, se nos impôs, a seguinte questão: “[…] se eu ‘participasse’ [dessa efervescência] o trabalho de campo se tornaria uma aventura pessoal, isto é, o contrário de um trabalho; mas se eu tentasse só “observar”, manter-me à distância, não acharia nada para observar […].”

Ainda amparada nas asserções de Favret-Saada (2005: 159), argumento que, sim, aceitei me deixar afetar pelas emoções presentes no discurso dos (as) integrantes dos movimentos sociais a que tive acesso durante a minha inserção no campo de estágio, pois, segundo a autora, o deixar-se afetar “[…] abre uma comunicação específica com os […] [movimentos sociais]: uma comunicação sempre involuntária e desprovida de intencionalidade, e que pode ser verbal ou não.”

O aspecto “verbal” desta comunicação que se estabeleceu entre mim e meus interlocutores, me foi perceptível em momentos em que de alguma maneira, eu me via instada a corresponder aos afetos produzidos por aqueles discursos e, de fato, a minha fala estava impregnada por toda aquela efervescência. E aqui cabe pontuar, que há uma distinção entre o parecer, que implica intencionalidade, e o realmente ser afetada pelo engajamento daquelas pessoas; já o aspecto não verbal pode ser traduzido como um processo de apreensão da intensidade das afecções a que os meus interlocutores estão submetidos, note que não se trata de apreender o afeto do outro, pois isso não me é dado, a mim é dado apenas a possibilidade de um deslocamento de perspectiva, a partir do qual a minha percepção consegue ir além da representação do afeto do outro.

Por fim destaco aqui, um outro aspecto importante dessa experiência. Todo esse processo de reflexão no qual foi possível perceber as impressões produzidas durante a minha imersão neste campo de estágio, ocorreu em um momento posterior a ele, ou seja, a compreensão da experiência se deu fora do campo, em um exercício profundo de escuta do eu e do outro.

Referências Bibliográficas:

FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Tradução: Paula Siqueira; Revisão: Tânia Stolze Lima. Cadernos de campo, Brasil, n. 13: 155-161, 2005.

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